Entenda como é a cirurgia do refluxo gastroesofágico

Se você sofre com refluxo gastroesofágico, sabe como essa condição pode impactar a qualidade de vida de qualquer um. A queimação constante, o gosto amargo na boca, a sensação de comida voltando e até alterações do sono podem atrapalhar as atividades simples do dia a dia.
Na maioria dos casos, o tratamento começa com mudanças na alimentação e medicamentos. Mas quando essas medidas deixam de funcionar adequadamente, a cirurgia pode ser uma alternativa muito eficaz e duradoura.
Uma dúvida muito comum dos pacientes é: a cirurgia do refluxo realmente funciona? E se existe a possibilidade de ela falhar e precisar ser refeita?
É exatamente sobre isso que vamos conversar hoje.
Como funciona a cirurgia do refluxo?
O procedimento mais realizado no mundo é chamado de fundoplicatura. Ele é feito por laparoscopia ou cirurgia robótica, através de pequenos furos no abdome.
O objetivo é criar um mecanismo anti refluxo por meio de uma válvula customizada, usando a região do fundo do estômago. Essa válvula é fixada no segmento inferior do esôfago e funciona como uma barreira para impedir que o conteúdo ácido do estômago volte para o esôfago.

Quais são as técnicas cirúrgicas?
Essa válvula pode ser construída de maneiras diferentes, mas as duas técnicas mais realizadas são:
Fundoplicatura de Nissen (total):
O envolvimento do esôfago é completo, em 360 graus. Na grande maioria dos pacientes, realizamos a fundoplicatura total de Nissen, com o objetivo de termos eficácia no controle do refluxo por muitos anos.
Fundoplicatura de Toupet (parcial):
O envolvimento é parcial, em 270 graus. Essa técnica pode ser uma boa opção por apresentar menor risco de disfagia pós-operatória, que é aquela sensação de dificuldade para engolir ou de alimento parado no peito após as refeições.
Geralmente, usamos a técnica parcial para pacientes idosos ou quando a manometria esofágica mostra sinais de que o esôfago já apresenta dificuldade de empurrar o alimento para o estômago (dismotilidade esofágica).
Por isso, atualmente, a escolha da técnica é cada vez mais individualizada, levando em consideração as características específicas de cada paciente.

A cirurgia do refluxo pode falhar?
A resposta é sim. Mas é importante entender o que isso significa na prática.
Grandes estudos internacionais mostram que a maioria dos pacientes permanece muito bem após a cirurgia, com controle duradouro dos sintomas. A literatura aponta taxas de satisfação superiores a 90% em acompanhamentos de longo prazo.
Entretanto, uma parcela dos pacientes pode apresentar recorrência do refluxo ao longo dos anos. Isso não significa necessariamente que a cirurgia foi mal feita. O corpo humano continua envelhecendo e sofrendo modificações naturais com o passar do tempo.
O que pode causar a recorrência do refluxo após a cirurgia?
Na prática, os principais fatores que contribuem para a recorrência são:
● Ganho excessivo de peso no pós-operatório: o aumento da pressão intra-abdominal força a válvula construída na cirurgia
● Tabagismo: prejudica a síntese de colágeno e causa perda de massa muscular na região do diafragma, por onde passa o esôfago
Assim como acontece em outras regiões do organismo, os tecidos podem perder resistência, e alterações anatômicas podem surgir mesmo após uma cirurgia inicialmente bem-sucedida.
As causas anatômicas mais comuns de falha incluem:
● O afrouxamento dos pontos utilizados na correção
● O deslocamento da válvula para dentro do tórax
● O reaparecimento de uma hérnia de hiato significativa
Quando isso acontece, o paciente pode voltar a apresentar sintomas como azia, regurgitação, tosse relacionada ao refluxo ou até dificuldade importante para engolir.
O que fazer se os sintomas voltarem?
Nessas situações, uma nova avaliação é necessária. Em alguns casos, o tratamento pode ser feito apenas com medicamentos, como inibidores da bomba de prótons. Em outros, pode haver indicação de uma cirurgia revisional, que consiste na reconstrução da válvula e da anatomia da região.
Embora seja um procedimento mais complexo do que a primeira operação, a cirurgia revisional pode trazer excelentes resultados quando realizada por equipes experientes, especialmente com o auxílio da cirurgia robótica, que oferece visão tridimensional ampliada e movimentos ultra precisos em uma região já manipulada.
Refluxo e obesidade: quando a cirurgia bariátrica é a melhor opção?
Outro ponto muito importante é que não existe uma única cirurgia ideal para todos os pacientes. A medicina moderna caminha cada vez mais para a personalização do tratamento.
Um exemplo clássico são os pacientes com obesidade associada ao refluxo gastroesofágico. Nestes casos, sabemos que a cirurgia antirrefluxo tradicional (fundoplicatura) apresenta taxas mais elevadas de recorrência ao longo do tempo.
Por isso, muitos pacientes obesos se beneficiam mais da cirurgia bariátrica do tipo bypass gástrico em Y de Roux, que além de promover a perda de peso, possui um efeito anti-refluxo comprovado.
Por outro lado, a cirurgia bariátrica do tipo sleeve (gastrectomia vertical) pode agravar ou até desencadear sintomas de refluxo em alguns pacientes, sendo uma contraindicação relativa para quem já apresenta a doença.

Quais exames são necessários antes da cirurgia?
Para definir qual é o melhor tratamento para cada pessoa, a avaliação pré-operatória é fundamental. Normalmente solicitamos:
● Endoscopia digestiva alta: para avaliar o estado da mucosa esofágica, identificar esofagite, esôfago de Barrett ou hérnia de hiato
● Manometria esofágica: para avaliar a função motora do esôfago e a pressão do esfíncter inferior, auxiliando na escolha da técnica cirúrgica (Nissen ou Toupet)
● pHmetria ou impedância-pHmetria: para confirmar, de forma objetiva, a presença e a intensidade do refluxo ácido e não ácido
Esses exames permitem entender exatamente como o esôfago está funcionando e confirmar a presença do refluxo. Com essas informações, conseguimos indicar o procedimento mais adequado para cada caso, aumentando as chances de sucesso a longo prazo.

FAQ: Perguntas frequentes sobre cirurgia do refluxo
A cirurgia do refluxo é segura?
Sim. A fundoplicatura é um dos procedimentos mais realizados no mundo em cirurgia do aparelho digestivo. Quando feita por laparoscopia ou cirurgia robótica, oferece baixo risco de complicações, mínima dor pós-operatória e recuperação rápida. A maioria dos pacientes retorna às atividades normais em poucos dias.
Depois da cirurgia vou poder comer normalmente?
Nas primeiras semanas após a cirurgia, a dieta é progressiva: líquidos, pastosos e depois sólidos, permitindo que a válvula cicatrize adequadamente. Após esse período de adaptação, a maioria dos pacientes retorna à alimentação normal. É recomendável manter hábitos saudáveis, comer devagar e mastigar bem os alimentos.
A cirurgia do refluxo é para sempre?
A cirurgia oferece controle duradouro dos sintomas na grande maioria dos pacientes. No entanto, como qualquer tratamento, não oferece garantia absoluta de resultado para toda a vida. Fatores como ganho de peso, tabagismo e o próprio envelhecimento podem influenciar os resultados a longo prazo. Quando bem indicada, bem planejada e realizada por equipe experiente, os índices de satisfação são extremamente elevados.
Quem é obeso pode fazer a cirurgia do refluxo tradicional?
Pacientes com obesidade associada ao refluxo podem ter resultados melhores com a cirurgia bariátrica do tipo bypass gástrico, que trata simultaneamente a obesidade e o refluxo. A fundoplicatura isolada em pacientes obesos apresenta taxas mais elevadas de recorrência. A decisão é individualizada e depende da avaliação completa do especialista.
A mensagem mais importante é a seguinte: a cirurgia do refluxo é um tratamento seguro, eficaz e capaz de proporcionar melhora significativa da qualidade de vida para a grande maioria dos pacientes. Se você sofre com refluxo e deseja saber qual é a melhor opção para o seu caso, procure uma avaliação com um cirurgião do aparelho digestivo.
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