
Hérnias e Parede Abdominal
DORES NA VIRILHA: HÉRNIA INGUINAL OU PODE SER A ARTICULAÇÃO DO QUADRIL?
Dores na virilha são muito comuns na população geral e chega a acometer até 18 % dos que praticam alguma atividade esportiva.

A hérnia lombar incisional é uma complicação pouco conhecida pelo público, mas que pode surgir após cirurgias realizadas na região lombar, especialmente as cirurgias renais. Pacientes que passaram por nefrectomia (retirada do rim), nefrolitotomia (retirada de cálculos renais) ou cirurgias para tumores renais podem desenvolver uma hérnia no local da incisão cirúrgica, meses ou até anos após o procedimento.
Muitos desses pacientes notam um abaulamento na região lateral do abdome ou na lombar, que aumenta com o esforço e melhora ao deitar. Alguns confundem o problema com excesso de peso localizado ou com uma sequela natural da cirurgia. Outros convivem com desconforto por muito tempo antes de buscar avaliação.
Neste artigo, vou explicar por que a hérnia lombar surge após cirurgias renais, quais os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais as opções de tratamento, incluindo a correção por cirurgia robótica.
A hérnia incisional é aquela que se forma no local de uma incisão cirúrgica prévia. Toda vez que a parede abdominal é aberta para uma cirurgia, o fechamento posterior cria uma cicatriz que pode ser mais frágil do que o tecido original. Com o tempo, essa cicatriz pode ceder, permitindo que o conteúdo abdominal (gordura, intestino ou outros tecidos) se projete através do defeito.
Quando essa hérnia ocorre especificamente na região lombar, ela é chamada de hérnia lombar incisional. Trata-se de uma hérnia de parede abdominal com características próprias, devido à anatomia complexa da região lombar.
A região lombar possui uma musculatura disposta em múltiplas camadas, com pontos de menor resistência naturais (triângulos de Petit e de Grynfeltt). Quando uma incisão cirúrgica atravessa essas camadas, a reconstrução nem sempre restaura a resistência original, tornando a área vulnerável.

As cirurgias renais realizadas por via aberta (lombar) utilizam incisões extensas na região lateral do abdome e na lombar para acessar o rim. Essa incisão atravessa pele, tecido subcutâneo e múltiplas camadas musculares, podendo incluir a ressecção parcial da costela inferior para ampliar o campo cirúrgico.
Os fatores que contribuem para o surgimento da hérnia lombar após cirurgia renal incluem:
● A extensão da incisão cirúrgica e a quantidade de camadas musculares seccionadas
● Lesão ou denervação dos nervos que inervam a musculatura abdominal lateral durante a cirurgia, causando atrofia muscular localizada
● Ressecção de costela, que remove um ponto de apoio estrutural da parede
● Infecção ou deiscência da ferida operatória no pós-operatório
● Obesidade, que aumenta a pressão intra-abdominal sobre a cicatriz
● Tabagismo, que compromete a síntese de colágeno e a cicatrização
● Esforço físico precoce no pós-operatório
● Idade avançada e perda natural de tônus muscular
Com as cirurgias renais minimamente invasivas (laparoscópicas e robóticas), a incidência de hérnia lombar incisional diminuiu significativamente, pois as incisões são muito menores. No entanto, mesmo cirurgias laparoscópicas podem gerar hérnias nos pontos de inserção dos trocárteres, embora com menor frequência.
Os sintomas da hérnia lombar incisional podem variar conforme o tamanho do defeito:
● Abaulamento ou protuberância na região lombar ou lateral do abdome, no local ou próximo à cicatriz da cirurgia renal
● Aumento do abaulamento ao ficar de pé, tossir, fazer esforço ou atividade física
● Redução ou desaparecimento do abaulamento ao deitar (hérnia redutível)
● Desconforto ou dor lombar, especialmente após longos períodos em pé ou atividade física
● Sensação de peso ou repuxamento na região
● Dificuldade para realizar atividades que exigem esforço abdominal
Em hérnias maiores, o abaulamento pode se tornar volumoso e causar limitação funcional significativa, prejudicando a postura, a mobilidade e a qualidade de vida.
Sinais de alarme que indicam necessidade de avaliação urgente:
● Dor intensa e súbita na região da hérnia
● Nódulo que não retorna para dentro ao deitar
● Náuseas e vômitos associados
● Alteração de coloração da pele sobre a hérnia
Esses sinais podem indicar encarceramento ou estrangulamento, condições que exigem atendimento de emergência.
O diagnóstico da hérnia lombar incisional começa pelo exame clínico detalhado, com a história cirúrgica do paciente e o exame físico da região lombar.
Os exames de imagem são frequentemente necessários para planejamento cirúrgico:
● Tomografia computadorizada de abdome: é o exame padrão ouro para hérnias de parede abdominal complexas. Permite avaliar com precisão o tamanho do defeito, o conteúdo herniado, a qualidade da musculatura ao redor e a presença de múltiplos defeitos
● Ultrassonografia de parede abdominal: útil para confirmação diagnóstica em casos iniciais

A hérnia lombar incisional não se resolve espontaneamente. A tendência natural é de aumento progressivo do defeito ao longo do tempo. O tratamento definitivo é cirúrgico.
Em pacientes com contraindicação cirúrgica absoluta (risco anestésico proibitivo), o uso de cintas ou faixas abdominais pode oferecer contenção e alívio dos sintomas, mas não corrige o defeito.
A cirurgia aberta envolve uma incisão sobre a região da hérnia lombar, redução do conteúdo herniado e fechamento do defeito com o reforço de uma tela (prótese). A técnica exige dissecção ampla das camadas musculares para posicionar a tela de forma adequada.
A abordagem minimamente invasiva tem se tornado a preferência para a correção da hérnia lombar incisional, especialmente com a cirurgia robótica.
A cirurgia robótica oferece vantagens significativas nesse tipo de hérnia:
● Visão tridimensional ampliada que facilita a identificação das camadas musculares e a dissecção precisa em uma região anatomicamente complexa
● Pinças articuladas que permitem o posicionamento preciso da tela de reforço em espaços de difícil acesso
● Menor dor pós-operatória e recuperação mais rápida
● Menores incisões, reduzindo o risco de novas hérnias incisionais
A tela é posicionada no plano retromuscular ou intraperitoneal, cobrindo amplamente o defeito com margem de segurança, e fixada com suturas ou dispositivos de fixação.
A recuperação após a correção da hérnia lombar varia conforme a técnica utilizada:
● Primeiros 7 a 14 dias: repouso relativo, evitar esforços. Atividades leves podem ser retomadas gradualmente
● 2 a 4 semanas: retorno às atividades profissionais, conforme o tipo de trabalho
● 6 a 8 semanas: liberação para atividade física e esforço, com orientação do cirurgião
● Acompanhamento periódico para avaliação da tela e da cicatrização
Não. A hérnia lombar incisional é uma complicação que ocorre em uma parcela dos pacientes, mais frequentemente após cirurgias abertas com incisões extensas. Cirurgias renais minimamente invasivas (laparoscópicas ou robóticas) apresentam risco significativamente menor.
Sim. A hérnia lombar incisional pode se manifestar meses ou até anos após a cirurgia renal. O enfraquecimento progressivo da cicatriz, associado a fatores como ganho de peso, envelhecimento e esforço físico, pode levar ao surgimento tardio do defeito.
Não. A cinta pode oferecer contenção e alívio dos sintomas, mas não corrige o defeito da parede abdominal. O tratamento definitivo é cirúrgico. O uso prolongado de cinta sem avaliação médica pode dar uma falsa sensação de segurança e atrasar o tratamento.
Existe risco de recidiva, como em toda correção de hérnia incisional. O uso de tela de reforço, a técnica cirúrgica adequada e os cuidados pós-operatórios (controle do peso, evitar tabagismo, respeitar o tempo de repouso) reduzem significativamente esse risco.
A hérnia lombar incisional após cirurgia renal é uma condição que impacta a qualidade de vida e tende a progredir com o tempo. A correção cirúrgica, especialmente por via minimamente invasiva ou robótica, oferece resultados seguros e duradouros. Se você passou por uma cirurgia de rim e percebeu um abaulamento na região da cicatriz, procure um cirurgião especialista em parede abdominal para avaliação.
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