Agendar Consulta

Retocolite ulcerativa: o que é, sintomas e como tratar

Doenças do Intestino11 de jun. de 20265 min min de leituraPor Dr. Fernando Bray
Retocolite ulcerativa: o que é, sintomas e como tratar

A retocolite ulcerativa é uma doença inflamatória intestinal crônica que afeta o intestino grosso e o reto, provocando inflamação contínua da mucosa com formação de úlceras. Junto com a Doença de Crohn, compõe o grupo das doenças inflamatórias intestinais (DII), condições que exigem acompanhamento especializado e tratamento contínuo.

Embora possa surgir em qualquer idade, a retocolite ulcerativa tem dois picos de incidência: entre 15 e 30 anos e entre 50 e 70 anos. No Brasil, a prevalência dessas doenças tem aumentado progressivamente nas últimas décadas, acompanhando uma tendência observada em países em desenvolvimento.

Os sintomas podem variar de leves a muito graves, com impacto direto na qualidade de vida, nas relações sociais e na capacidade de trabalho do paciente. O medo de não encontrar um banheiro a tempo, o constrangimento com os sintomas e a imprevisibilidade das crises fazem parte da rotina de muitos portadores.

Neste artigo, vou explicar o que é a retocolite ulcerativa, como diferenciá-la da Doença de Crohn, quais os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento disponíveis.

O que é a retocolite ulcerativa?

A retocolite ulcerativa é uma doença autoimune em que o sistema de defesa do organismo passa a atacar a própria mucosa do intestino grosso, causando inflamação crônica, edema, sangramento e formação de úlceras superficiais.

Uma característica importante dessa doença é que a inflamação é contínua e restrita ao intestino grosso (cólon) e ao reto. Ela sempre se inicia no reto e pode se estender de forma ascendente por toda a extensão do cólon, mas nunca acomete o intestino delgado.

A extensão da inflamação é classificada em três padrões:

Proctite ulcerativa: quando a inflamação se limita ao reto. É a forma mais branda e localizada.

Colite esquerda (ou colite distal): quando a inflamação atinge do reto até a curva esplênica, comprometendo o lado esquerdo do cólon.

Pancolite: quando todo o intestino grosso está acometido, do reto ao ceco. É a forma mais extensa e pode apresentar sintomas mais intensos.

Qual a diferença entre retocolite ulcerativa e Doença de Crohn?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório. Embora pertençam ao mesmo grupo de doenças inflamatórias intestinais e compartilhem sintomas semelhantes, retocolite ulcerativa e Doença de Crohn possuem diferenças importantes:

Característica 

Retocolite Ulcerativa

Doença de Crohn

Local acometido

Apenas intestino grosso e reto

Qualquer parte do trato 

Padrão de inflamação

Contínuo (sem áreas saudáveis entre as lesões)

Salteado (áreas inflamadas intercaladas com áreas normais)

Profundidade

Superficial (mucosa e submucosa)

Transmural (atinge todas as camadas da parede intestinal)

Fístulas e abscessos

Raros

Frequentes

Sangramento retal

Muito frequente

Menos frequente

Estenose intestinal

Rara

Comum

Em aproximadamente 10% dos casos, não é possível diferenciar com certeza as duas doenças, sendo classificadas como colite indeterminada até que a evolução clínica esclareça o diagnóstico.

Quais são as causas da retocolite ulcerativa?

A causa exata da retocolite ulcerativa ainda não foi totalmente definida. O que se sabe é que a doença resulta de uma interação entre múltiplos fatores:

Predisposição genética: pacientes com histórico familiar de doenças inflamatórias intestinais possuem risco maior. Diversos genes relacionados à regulação do sistema imunológico já foram identificados.

Desregulação imunológica: o sistema imune perde a capacidade de diferenciar as bactérias normais do intestino de agentes invasores, passando a atacar a própria mucosa intestinal.

Fatores ambientais: dieta ocidentalizada (rica em ultraprocessados e pobre em fibras), uso frequente de anti-inflamatórios não esteroidais, estresse crônico, infecções gastrointestinais prévias e alterações da microbiota intestinal podem atuar como gatilhos em indivíduos geneticamente predispostos.

Desequilíbrio da microbiota: pacientes com retocolite frequentemente apresentam redução da diversidade bacteriana intestinal, com diminuição de bactérias protetoras e aumento de espécies potencialmente danosas.

É importante ressaltar que a retocolite ulcerativa não é causada por estresse ou má alimentação isoladamente, mas esses fatores podem desencadear crises em quem já possui a doença.

Quais são os sintomas da retocolite ulcerativa?

Os sintomas variam conforme a extensão e a gravidade da inflamação. O curso da doença é caracterizado por períodos de crise (atividade) intercalados com períodos de remissão (sem sintomas).

Os principais sintomas incluem:

  • Diarreia crônica com sangue e muco nas fezes

  • Urgência evacuatória intensa (necessidade imediata de ir ao banheiro)

  • Tenesmo (sensação de evacuação incompleta, vontade constante de evacuar mesmo sem fezes para eliminar)

  • Cólicas abdominais, especialmente na parte inferior esquerda do abdome

  • Sangramento retal, que pode variar de leve a intenso

  • Aumento da frequência de evacuações (podendo ultrapassar 10 vezes ao dia nas crises graves)

  • Fezes amolecidas ou líquidas com sangue vivo

  • Perda de peso e fadiga

  • Febre durante crises mais intensas

  • Anemia por perda crônica de sangue

Além dos sintomas intestinais, a retocolite ulcerativa pode apresentar manifestações extraintestinais, que acometem outros órgãos:

  • Articulações: dores articulares e artrite

  • Pele: eritema nodoso (nódulos dolorosos e avermelhados) e pioderma gangrenoso (úlceras cutâneas)

  • Olhos: uveíte e episclerite (inflamação ocular com dor e vermelhidão)

  • Fígado: colangite esclerosante primária (inflamação dos ductos biliares)

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da retocolite ulcerativa envolve a combinação de história clínica, exames laboratoriais, exames de imagem e, fundamentalmente, a colonoscopia com biópsia.

Exames laboratoriais:

  • Hemograma completo: (para detectar anemia e sinais de inflamação(

  • Proteína C reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS), que são marcadores inflamatórios

  • Calprotectina fecal, marcador muito útil para diferenciar doenças inflamatórias intestinais de distúrbios funcionais como a síndrome do intestino irritável. Valores elevados indicam inflamação intestinal ativa

  • Pesquisa de patógenos nas fezes para descartar infecções

Colonoscopia com biópsia:

A colonoscopia é o exame fundamental para o diagnóstico. Ela permite visualizar diretamente a mucosa do intestino grosso e identificar o padrão de inflamação: edema, hiperemia (vermelhidão), úlceras, sangramento espontâneo e perda do padrão vascular normal.

As biópsias colhidas durante o exame são analisadas ao microscópio e confirmam o diagnóstico, mostrando infiltrado inflamatório característico na mucosa e submucosa, distorção das criptas intestinais e depleção de células caliciformes.

A colonoscopia também é essencial para avaliar a extensão da doença e para o acompanhamento a longo prazo, já que pacientes com retocolite ulcerativa de longa data possuem risco aumentado de câncer colorretal.

Qual o tratamento da retocolite ulcerativa?

O tratamento da retocolite ulcerativa tem dois objetivos principais: controlar a crise (induzir a remissão) e manter o paciente sem sintomas pelo maior tempo possível (manter a remissão). A escolha do tratamento depende da extensão, da gravidade e da resposta individual do paciente.

Tratamento medicamentoso:

Aminossalicilatos (mesalazina/sulfassalazina): são a primeira linha de tratamento para formas leves a moderadas. Podem ser administrados por via oral e/ou retal (supositórios e enemas). Atuam diretamente na mucosa intestinal, reduzindo a inflamação local.

Corticoides: utilizados para controlar crises moderadas a graves que não respondem aos aminossalicilatos. São eficazes para induzir remissão, mas não devem ser usados a longo prazo devido aos efeitos colaterais (ganho de peso, osteoporose, diabetes, imunossupressão).

Imunossupressores (azatioprina, 6-mercaptopurina, metotrexato): indicados para pacientes que necessitam de corticoides frequentemente (corticodependentes) ou que não respondem adequadamente à terapia convencional. Atuam reduzindo a resposta imunológica exacerbada.

Terapia biológica: medicamentos de última geração que bloqueiam moléculas específicas do processo inflamatório. Incluem anti-TNF (infliximabe, adalimumabe), anti-integrinas (vedolizumabe) e anti-interleucinas (ustequinumabe). São indicados para formas moderadas a graves, refratárias aos tratamentos anteriores.

Pequenas moléculas (tofacitinibe, ozanimode): representam uma nova classe de medicamentos orais que atuam em vias inflamatórias intracelulares. São uma opção para pacientes que não respondem ou perdem resposta à terapia biológica.

Tratamento cirúrgico:

A cirurgia é indicada quando o tratamento clínico falha em controlar a doença, quando há complicações graves (megacólon tóxico, hemorragia maciça, perfuração) ou quando há displasia ou câncer detectado nas colonoscopias de vigilância.

A cirurgia padrão é a proctocolectomia total com bolsa ileal (IPAA), que consiste na retirada completa do intestino grosso e do reto, com reconstrução de um reservatório interno utilizando o intestino delgado. Esse reservatório é conectado ao canal anal, permitindo que o paciente mantenha a evacuação por via natural, sem necessidade de bolsa de colostomia definitiva.

O procedimento pode ser realizado por cirurgia laparoscópica ou robótica, com as vantagens já conhecidas das técnicas minimamente invasivas: menor dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor taxa de infecção e melhor resultado estético.

Em situações de urgência, a cirurgia pode ser realizada em etapas, com colectomia inicial e reconstrução posterior, após a estabilização clínica do paciente.

A retocolite ulcerativa aumenta o risco de câncer?

Sim. Pacientes com retocolite ulcerativa de longa duração (geralmente acima de 8 a 10 anos de doença) apresentam risco aumentado de desenvolver câncer colorretal. Esse risco é maior quando a doença acomete todo o cólon (pancolite), quando há histórico familiar de câncer colorretal e quando a inflamação não está adequadamente controlada.

Por esse motivo, colonoscopias de vigilância com biópsias são recomendadas periodicamente. Em geral, inicia-se o programa de vigilância 8 anos após o diagnóstico, com colonoscopias a cada 1 a 3 anos, dependendo dos fatores de risco individuais.

Manter a doença em remissão com o tratamento adequado é uma das formas mais eficazes de reduzir o risco de câncer.

FAQ: Perguntas frequentes sobre retocolite ulcerativa

Retocolite ulcerativa tem cura?

Atualmente, a cura medicamentosa definitiva não existe. No entanto, com o tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue manter a doença em remissão por longos períodos, com qualidade de vida preservada. A cirurgia de proctocolectomia total, quando indicada, elimina a doença do cólon, mas possui implicações que devem ser discutidas com o especialista.

Posso ter uma vida normal com retocolite ulcerativa?

Sim. Com o tratamento correto e o acompanhamento regular, a maioria dos pacientes consegue manter suas atividades profissionais, sociais e físicas normalmente. Os períodos de remissão podem durar meses ou anos. O fundamental é manter a adesão ao tratamento e o seguimento com o especialista.

Qual a diferença entre retocolite ulcerativa e síndrome do intestino irritável?

A retocolite ulcerativa é uma doença inflamatória com lesões visíveis na colonoscopia e alterações nas biópsias. A síndrome do intestino irritável é um distúrbio funcional sem inflamação detectável nos exames. Os sintomas podem ser semelhantes (diarreia, dor abdominal), o que torna a avaliação especializada fundamental para o diagnóstico diferencial.

Alimentação pode controlar a retocolite?

A alimentação sozinha não controla a doença, mas desempenha papel importante no manejo dos sintomas. Durante as crises, dietas com menor teor de fibras insolúveis e resíduos podem trazer alívio. Na remissão, uma alimentação equilibrada e anti-inflamatória contribui para manter o intestino saudável. O acompanhamento nutricional é recomendado.

Esse é um texto informativo e não substitui a consulta médica para avaliação e conduta. Procure um coloproctologista com título de especialista, conferido pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia, para diagnóstico e tratamento adequado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ungaro R, Mehandru S, Allen PB, Peyrin-Biroulet L, Colombel JF. Ulcerative colitis. Lancet. 2017 Apr 29;389(10080):1756-1770. DOI: 10.1016/S0140-6736(16)32126-2.

Rubin DT, Ananthakrishnan AN, Siegel CA, Sauer BG, Long MD. ACG Clinical Guideline: Ulcerative Colitis in Adults. Am J Gastroenterol. 2019 Mar;114(3):384-413. DOI: 10.14309/ajg.0000000000000152.

Magro F, Gionchetti P, Eliakim R, Ardizzone S, Armuzzi A, Barreiro-de Acosta M, et al. Third European Evidence-based Consensus on Diagnosis and Management of Ulcerative Colitis. Part 1: Definitions, Diagnosis, Extra-intestinal Manifestations, Pregnancy, Cancer Surveillance, Surgery, and Ileo-anal Pouch Disorders. J Crohns Colitis. 2017 Jun 1;11(6):649-670. DOI: 10.1093/ecco-jcc/jjx008.

Feuerstein JD, Isaacs KL, Schneider Y, Siddique SM, Falck-Ytter Y, Singh S; AGA Institute Clinical Guidelines Committee. AGA Clinical Practice Guidelines on the Management of Moderate to Severe Ulcerative Colitis. Gastroenterology. 2020 Apr;158(5):1450-1461. DOI: 10.1053/j.gastro.2020.01.006.

Harbord M, Eliakim R, Bettenworth D, Karmiris K, Katsanos K, Bennink RJ, et al. Third European Evidence-based Consensus on Diagnosis and Management of Ulcerative Colitis. Part 2: Current Management. J Crohns Colitis. 2017 Jul 1;11(7):769-784. DOI: 10.1093/ecco-jcc/jjx009.

Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 124.696 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

Precisa de uma avaliação especializada?

Agende uma consulta presencial em São Paulo ou por videoconferência com o Dr. Fernando Bray.

Agendar consulta