
Doenças do Intestino
Incontinência fecal: causas, diagnóstico e tratamento
Entenda o que é incontinência fecal, quais as principais causas, como é feito o diagnóstico e as opções de tratamento disponíveis. Guia de especialista.

A retocolite ulcerativa é uma doença inflamatória intestinal crônica que afeta o intestino grosso e o reto, provocando inflamação contínua da mucosa com formação de úlceras. Junto com a Doença de Crohn, compõe o grupo das doenças inflamatórias intestinais (DII), condições que exigem acompanhamento especializado e tratamento contínuo.
Embora possa surgir em qualquer idade, a retocolite ulcerativa tem dois picos de incidência: entre 15 e 30 anos e entre 50 e 70 anos. No Brasil, a prevalência dessas doenças tem aumentado progressivamente nas últimas décadas, acompanhando uma tendência observada em países em desenvolvimento.
Os sintomas podem variar de leves a muito graves, com impacto direto na qualidade de vida, nas relações sociais e na capacidade de trabalho do paciente. O medo de não encontrar um banheiro a tempo, o constrangimento com os sintomas e a imprevisibilidade das crises fazem parte da rotina de muitos portadores.
Neste artigo, vou explicar o que é a retocolite ulcerativa, como diferenciá-la da Doença de Crohn, quais os sintomas, como é feito o diagnóstico e quais são as opções de tratamento disponíveis.
A retocolite ulcerativa é uma doença autoimune em que o sistema de defesa do organismo passa a atacar a própria mucosa do intestino grosso, causando inflamação crônica, edema, sangramento e formação de úlceras superficiais.
Uma característica importante dessa doença é que a inflamação é contínua e restrita ao intestino grosso (cólon) e ao reto. Ela sempre se inicia no reto e pode se estender de forma ascendente por toda a extensão do cólon, mas nunca acomete o intestino delgado.
Proctite ulcerativa: quando a inflamação se limita ao reto. É a forma mais branda e localizada.
Colite esquerda (ou colite distal): quando a inflamação atinge do reto até a curva esplênica, comprometendo o lado esquerdo do cólon.
Pancolite: quando todo o intestino grosso está acometido, do reto ao ceco. É a forma mais extensa e pode apresentar sintomas mais intensos.
Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório. Embora pertençam ao mesmo grupo de doenças inflamatórias intestinais e compartilhem sintomas semelhantes, retocolite ulcerativa e Doença de Crohn possuem diferenças importantes:
Característica | Retocolite Ulcerativa | Doença de Crohn |
Local acometido | Apenas intestino grosso e reto | Qualquer parte do trato |
Padrão de inflamação | Contínuo (sem áreas saudáveis entre as lesões) | Salteado (áreas inflamadas intercaladas com áreas normais) |
Profundidade | Superficial (mucosa e submucosa) | Transmural (atinge todas as camadas da parede intestinal) |
Fístulas e abscessos | Raros | Frequentes |
Sangramento retal | Muito frequente | Menos frequente |
Estenose intestinal | Rara | Comum |
Em aproximadamente 10% dos casos, não é possível diferenciar com certeza as duas doenças, sendo classificadas como colite indeterminada até que a evolução clínica esclareça o diagnóstico.
A causa exata da retocolite ulcerativa ainda não foi totalmente definida. O que se sabe é que a doença resulta de uma interação entre múltiplos fatores:
Predisposição genética: pacientes com histórico familiar de doenças inflamatórias intestinais possuem risco maior. Diversos genes relacionados à regulação do sistema imunológico já foram identificados.
Desregulação imunológica: o sistema imune perde a capacidade de diferenciar as bactérias normais do intestino de agentes invasores, passando a atacar a própria mucosa intestinal.
Fatores ambientais: dieta ocidentalizada (rica em ultraprocessados e pobre em fibras), uso frequente de anti-inflamatórios não esteroidais, estresse crônico, infecções gastrointestinais prévias e alterações da microbiota intestinal podem atuar como gatilhos em indivíduos geneticamente predispostos.
Desequilíbrio da microbiota: pacientes com retocolite frequentemente apresentam redução da diversidade bacteriana intestinal, com diminuição de bactérias protetoras e aumento de espécies potencialmente danosas.
É importante ressaltar que a retocolite ulcerativa não é causada por estresse ou má alimentação isoladamente, mas esses fatores podem desencadear crises em quem já possui a doença.
Os sintomas variam conforme a extensão e a gravidade da inflamação. O curso da doença é caracterizado por períodos de crise (atividade) intercalados com períodos de remissão (sem sintomas).
Diarreia crônica com sangue e muco nas fezes
Urgência evacuatória intensa (necessidade imediata de ir ao banheiro)
Tenesmo (sensação de evacuação incompleta, vontade constante de evacuar mesmo sem fezes para eliminar)
Cólicas abdominais, especialmente na parte inferior esquerda do abdome
Sangramento retal, que pode variar de leve a intenso
Aumento da frequência de evacuações (podendo ultrapassar 10 vezes ao dia nas crises graves)
Fezes amolecidas ou líquidas com sangue vivo
Perda de peso e fadiga
Febre durante crises mais intensas
Anemia por perda crônica de sangue
Além dos sintomas intestinais, a retocolite ulcerativa pode apresentar manifestações extraintestinais, que acometem outros órgãos:
Articulações: dores articulares e artrite
Pele: eritema nodoso (nódulos dolorosos e avermelhados) e pioderma gangrenoso (úlceras cutâneas)
Olhos: uveíte e episclerite (inflamação ocular com dor e vermelhidão)
Fígado: colangite esclerosante primária (inflamação dos ductos biliares)
O diagnóstico da retocolite ulcerativa envolve a combinação de história clínica, exames laboratoriais, exames de imagem e, fundamentalmente, a colonoscopia com biópsia.
Exames laboratoriais:
Hemograma completo: (para detectar anemia e sinais de inflamação(
Proteína C reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS), que são marcadores inflamatórios
Calprotectina fecal, marcador muito útil para diferenciar doenças inflamatórias intestinais de distúrbios funcionais como a síndrome do intestino irritável. Valores elevados indicam inflamação intestinal ativa
Pesquisa de patógenos nas fezes para descartar infecções
Colonoscopia com biópsia:
A colonoscopia é o exame fundamental para o diagnóstico. Ela permite visualizar diretamente a mucosa do intestino grosso e identificar o padrão de inflamação: edema, hiperemia (vermelhidão), úlceras, sangramento espontâneo e perda do padrão vascular normal.
As biópsias colhidas durante o exame são analisadas ao microscópio e confirmam o diagnóstico, mostrando infiltrado inflamatório característico na mucosa e submucosa, distorção das criptas intestinais e depleção de células caliciformes.
A colonoscopia também é essencial para avaliar a extensão da doença e para o acompanhamento a longo prazo, já que pacientes com retocolite ulcerativa de longa data possuem risco aumentado de câncer colorretal.
O tratamento da retocolite ulcerativa tem dois objetivos principais: controlar a crise (induzir a remissão) e manter o paciente sem sintomas pelo maior tempo possível (manter a remissão). A escolha do tratamento depende da extensão, da gravidade e da resposta individual do paciente.
Tratamento medicamentoso:
Aminossalicilatos (mesalazina/sulfassalazina): são a primeira linha de tratamento para formas leves a moderadas. Podem ser administrados por via oral e/ou retal (supositórios e enemas). Atuam diretamente na mucosa intestinal, reduzindo a inflamação local.
Corticoides: utilizados para controlar crises moderadas a graves que não respondem aos aminossalicilatos. São eficazes para induzir remissão, mas não devem ser usados a longo prazo devido aos efeitos colaterais (ganho de peso, osteoporose, diabetes, imunossupressão).
Imunossupressores (azatioprina, 6-mercaptopurina, metotrexato): indicados para pacientes que necessitam de corticoides frequentemente (corticodependentes) ou que não respondem adequadamente à terapia convencional. Atuam reduzindo a resposta imunológica exacerbada.
Terapia biológica: medicamentos de última geração que bloqueiam moléculas específicas do processo inflamatório. Incluem anti-TNF (infliximabe, adalimumabe), anti-integrinas (vedolizumabe) e anti-interleucinas (ustequinumabe). São indicados para formas moderadas a graves, refratárias aos tratamentos anteriores.
Pequenas moléculas (tofacitinibe, ozanimode): representam uma nova classe de medicamentos orais que atuam em vias inflamatórias intracelulares. São uma opção para pacientes que não respondem ou perdem resposta à terapia biológica.
Tratamento cirúrgico:
A cirurgia é indicada quando o tratamento clínico falha em controlar a doença, quando há complicações graves (megacólon tóxico, hemorragia maciça, perfuração) ou quando há displasia ou câncer detectado nas colonoscopias de vigilância.
A cirurgia padrão é a proctocolectomia total com bolsa ileal (IPAA), que consiste na retirada completa do intestino grosso e do reto, com reconstrução de um reservatório interno utilizando o intestino delgado. Esse reservatório é conectado ao canal anal, permitindo que o paciente mantenha a evacuação por via natural, sem necessidade de bolsa de colostomia definitiva.
O procedimento pode ser realizado por cirurgia laparoscópica ou robótica, com as vantagens já conhecidas das técnicas minimamente invasivas: menor dor pós-operatória, recuperação mais rápida, menor taxa de infecção e melhor resultado estético.
Em situações de urgência, a cirurgia pode ser realizada em etapas, com colectomia inicial e reconstrução posterior, após a estabilização clínica do paciente.
Sim. Pacientes com retocolite ulcerativa de longa duração (geralmente acima de 8 a 10 anos de doença) apresentam risco aumentado de desenvolver câncer colorretal. Esse risco é maior quando a doença acomete todo o cólon (pancolite), quando há histórico familiar de câncer colorretal e quando a inflamação não está adequadamente controlada.
Por esse motivo, colonoscopias de vigilância com biópsias são recomendadas periodicamente. Em geral, inicia-se o programa de vigilância 8 anos após o diagnóstico, com colonoscopias a cada 1 a 3 anos, dependendo dos fatores de risco individuais.
Manter a doença em remissão com o tratamento adequado é uma das formas mais eficazes de reduzir o risco de câncer.
Retocolite ulcerativa tem cura?
Atualmente, a cura medicamentosa definitiva não existe. No entanto, com o tratamento adequado, a maioria dos pacientes consegue manter a doença em remissão por longos períodos, com qualidade de vida preservada. A cirurgia de proctocolectomia total, quando indicada, elimina a doença do cólon, mas possui implicações que devem ser discutidas com o especialista.
Posso ter uma vida normal com retocolite ulcerativa?
Sim. Com o tratamento correto e o acompanhamento regular, a maioria dos pacientes consegue manter suas atividades profissionais, sociais e físicas normalmente. Os períodos de remissão podem durar meses ou anos. O fundamental é manter a adesão ao tratamento e o seguimento com o especialista.
Qual a diferença entre retocolite ulcerativa e síndrome do intestino irritável?
A retocolite ulcerativa é uma doença inflamatória com lesões visíveis na colonoscopia e alterações nas biópsias. A síndrome do intestino irritável é um distúrbio funcional sem inflamação detectável nos exames. Os sintomas podem ser semelhantes (diarreia, dor abdominal), o que torna a avaliação especializada fundamental para o diagnóstico diferencial.
Alimentação pode controlar a retocolite?
A alimentação sozinha não controla a doença, mas desempenha papel importante no manejo dos sintomas. Durante as crises, dietas com menor teor de fibras insolúveis e resíduos podem trazer alívio. Na remissão, uma alimentação equilibrada e anti-inflamatória contribui para manter o intestino saudável. O acompanhamento nutricional é recomendado.
Esse é um texto informativo e não substitui a consulta médica para avaliação e conduta. Procure um coloproctologista com título de especialista, conferido pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia, para diagnóstico e tratamento adequado.
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