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Sensação de "bola" na vagina ou no ânus ao evacuar? Saiba o que é retocele

8 de jul. de 20265 min min de leituraPor Dr. Fernando Bray
Sensação de "bola" na vagina ou no ânus ao evacuar? Saiba o que é retocele

Você já teve a sensação de um peso ou de uma "bola" saindo pela vagina ou pelo ânus, principalmente na hora de ir ao banheiro?

Ou já precisou empurrar a parede da vagina com os dedos para conseguir que as fezes saíssem?

Se você já passou por isso, saiba que esse é um problema muito mais comum do que se imagina. E essa condição pode ser uma retocele.

O que é a retocele e por que ela acontece?

Para entender a retocele, pense que o reto e a vagina são vizinhos de parede. Entre eles, existe um "muro" natural feito de músculos e tecidos firmes, chamado septo retovaginal, que serve para manter cada órgão no seu devido lugar.

O problema é que, ao longo da vida, esse muro pode enfraquecer e ficar flácido. Isso costuma acontecer devido a fatores como:

● Partos vaginais (normais), especialmente múltiplos ou com recém-nascidos de peso elevado

● Envelhecimento e menopausa, pela queda natural dos níveis de estrogênio que mantêm a firmeza dos tecidos pélvicos

● Excesso de peso

● Constipação crônica, em pessoas que sofrem com intestino preso durante anos e fazem muita força para evacuar

● Cirurgias ginecológicas ou na região do períneo

Quando essa parede enfraquece, na hora em que você faz força para evacuar, as fezes não saem direto pelo ânus. Elas empurram a parede flácida e criam uma "bolsa" que estufa para dentro da vagina. É essa bolsa que causa a sensação de entupimento e peso.

Muitas mulheres demoram anos para procurar ajuda por constrangimento, muitas vezes confundindo o problema com hemorroidas ou até mesmo com tumores.

Quais são os sintomas da retocele?

Fique atenta aos sinais mais clássicos:

● Dificuldade crônica para evacuar, mesmo quando as fezes estão pastosas ou macias

● Sensação de evacuação incompleta (parece que você foi ao banheiro, mas não conseguiu esvaziar tudo)

● Sensação de peso na região pélvica, que costuma piorar no final do dia ou após longos períodos em pé

● Necessidade de realizar a "manobra digital", que é o ato de pressionar a vagina ou a região ao redor do ânus com os dedos para conseguir guiar as fezes para fora

● Sensação de "bola" ou protuberância na entrada da vagina, especialmente ao esforço

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da retocele costuma ser feito no próprio consultório, através do exame físico, proctológico e ginecológico. O médico consegue avaliar o grau de flacidez da parede muscular apenas examinando a paciente.

No entanto, para termos dados mais objetivos e planejar o tratamento adequado, precisamos entender o tamanho exato da retocele e verificar se existem outros problemas associados, como prolapso de reto, prolapso de útero ou bexiga caída (cistocele), que frequentemente coexistem com a retocele.

Com esse objetivo, solicitamos exames de imagem específicos:

● Defecografia (com raio-X): exame dinâmico que registra o movimento do reto durante a evacuação simulada, permitindo visualizar a retocele em funcionamento

● Defecorressonância (ressonância magnética dinâmica da pelve): exame mais detalhado, que estuda com precisão a dinâmica de movimento do reto e da retocele durante a evacuação, além de avaliar com detalhes os músculos do assoalho pélvico que sustentam os órgãos da pelve

Esses exames são fundamentais para classificar o grau da retocele e definir a melhor estratégia de tratamento.

Como é feito o tratamento da retocele?

Nem toda retocele precisa de cirurgia. A maioria dos casos iniciais ou moderados pode ser tratada sem nenhuma intervenção cirúrgica.

Tratamento conservador: reabilitação do assoalho pélvico

A primeira parte do tratamento é o fortalecimento do assoalho pélvico, realizado com a fisioterapia pélvica especializada. A fisioterapia vai ajudar a paciente a hipertrofiar e reativar a contratilidade dos músculos pélvicos, além de garantir melhor percepção da sensibilidade do reto e do ânus, com melhor esvaziamento do reto no momento da evacuação.

Recursos complementares utilizados na reabilitação incluem:

● Estimuladores de corrente elétrica (eletroestimulação)

● Biofeedback com balão de ar para treino evacuatório

● Orientações posturais para evacuação (uso de apoio para os pés, postura adequada)

● Adequação da dieta com fibras e líquidos para evitar esforço excessivo

Tratamento cirúrgico

A cirurgia fica reservada para pacientes com retoceles maiores ou que não melhoraram com a fisioterapia pélvica.

A escolha da técnica cirúrgica não segue uma única linha de raciocínio, pois depende diretamente da anatomia de cada paciente e da presença de outras alterações na região, como a queda do útero, da bexiga ou a ocorrência de prolapso retal.

Quais são as técnicas cirúrgicas para retocele?

Correção por via vaginal (colporrafia posterior):

É a abordagem mais frequente e tradicional. Nessa técnica, o cirurgião faz uma incisão na parede posterior da vagina para acessar diretamente os tecidos e os músculos que se encontram frouxos e enfraquecidos.

A musculatura do assoalho pélvico é então reforçada com pontos cirúrgicos feitos com fios absorvíveis, o que traz grande conforto para a paciente, já que o próprio organismo se encarrega de absorver os pontos ao longo das semanas, dispensando a necessidade de retirá-los no consultório.

Correção por via perineal ou transanal:

De maneira bastante semelhante, o procedimento também pode ser realizado através do períneo (o espaço entre a vagina e o ânus) ou por dentro do próprio reto, onde as estruturas são suturadas para devolver a firmeza original à parede entre o reto e a vagina.

Correção por via abdominal (sacropromontofixação robótica):

Quando a retocele é maior, complexa ou vem acompanhada de prolapso retal e da queda de outros órgãos pélvicos, a abordagem por via abdominal costuma ser a mais indicada.

Atualmente, essa cirurgia é feita de forma minimamente invasiva por meio da cirurgia robótica, através de pequenas incisões na parede abdominal. O nome dessa técnica é sacropromontofixação do reto robótica.

Essa tecnologia avançada não apenas oferece ao cirurgião uma visão extremamente detalhada das estruturas profundas da pelve, mas também proporciona um procedimento mais preciso, seguro e com menor perda de sangue.

Nessa técnica, o cirurgião utiliza pinças de alta precisão para reposicionar o intestino e fixá-lo de forma segura na região lombossacral. Na maioria desses casos, utiliza-se uma tela absorvível de suporte para garantir que a parede fortalecida não volte a ceder com o tempo.

FAQ: Perguntas frequentes sobre retocele

Retocele é a mesma coisa que prolapso retal?

Não. Na retocele, a parede do reto se projeta para dentro da vagina, criando uma "bolsa" que dificulta a evacuação. No prolapso retal, o próprio reto se exterioriza pelo ânus. São condições distintas, embora possam coexistir na mesma paciente e compartilhem fatores de risco como o enfraquecimento do assoalho pélvico.

Todo mundo que tem retocele precisa operar?

Não. A maioria dos casos iniciais e moderados responde bem ao tratamento conservador com fisioterapia pélvica, adequação alimentar e orientações posturais. A cirurgia é reservada para retoceles maiores, sintomáticos e que não melhoraram com o tratamento conservador. A decisão é sempre individualizada.

A retocele pode voltar depois da cirurgia?

Existe risco de recidiva, que varia conforme a técnica utilizada e a condição dos tecidos da paciente. Manter a fisioterapia pélvica no pós-operatório, controlar o peso, evitar constipação e esforço evacuatório excessivo são medidas que reduzem significativamente o risco de retorno.

Homens podem ter retocele?

A retocele é uma condição quase exclusivamente feminina, justamente pela relação anatômica entre o reto e a vagina. Homens não possuem essa parede retovaginal. No entanto, homens podem apresentar outras alterações de assoalho pélvico, como o prolapso retal e a intussuscepção retal, que causam sintomas semelhantes de dificuldade evacuatória.

Procure um coloproctologista com experiência em cirurgias para tratamento de doenças do assoalho pélvico e distúrbios de evacuação. A retocele é uma condição com tratamento eficaz, e o primeiro passo é a avaliação especializada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Dr. Fernando Bray
Dr. Fernando Bray

Coloproctologista e gastrocirurgião. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde, coordenador do Núcleo de Cirurgia Robótica do Hospital Santa Catarina Paulista. CRM-SP 124.696 · RQE 34914 · RQE 35880 · RQE 37825.

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