
Doenças do Ânus
Entenda o que é prolapso retal, os sintomas, diagnóstico e tratamento
Saiba o que é prolapso retal, a diferença para hemorroidas, os sintomas, como cuidar no dia a dia e quando a cirurgia é indicada. Guia completo do especialista.

A fissura anal crônica é uma das condições mais dolorosas da coloproctologia. Trata-se de uma pequena ferida no canal anal que não cicatriza, gerando dor intensa a cada evacuação, sangramento e espasmo muscular. Para muitos pacientes, ir ao banheiro se torna um momento de sofrimento diário.
O tratamento inicial da fissura anal envolve medidas clínicas como dieta rica em fibras, banhos de assento e pomadas relaxantes. Porém, quando a fissura anal se torna crônica e não responde a essas medidas, é preciso avançar no tratamento. E é nesse cenário que a toxina botulínica surge como uma alternativa eficaz e minimamente invasiva.
Neste artigo, vou explicar como a toxina botulínica atua no tratamento da fissura anal crônica, quais os resultados esperados e quando esse procedimento é indicado.
A fissura anal é uma pequena laceração no revestimento do canal anal. Quando essa ferida não cicatriza após 6 a 8 semanas de tratamento conservador, ela é classificada como crônica.
Na fissura crônica, a ferida desenvolve bordas endurecidas (fibrosadas), pode surgir uma papila hipertrófica na parte interna e um plicoma sentinela na parte externa. Esses achados indicam que o processo cicatricial está comprometido.
O principal vilão por trás dessa dificuldade de cicatrização é o espasmo do esfíncter anal interno. Esse músculo involuntário, que normalmente mantém o canal anal fechado, entra em contração excessiva (hipertonia) por reflexo à dor da fissura. Essa contração reduz o fluxo sanguíneo na região da ferida, privando-a de oxigênio e nutrientes, e impedindo a cicatrização.
Forma-se então um ciclo vicioso: a fissura causa dor, a dor causa espasmo, o espasmo reduz o fluxo sanguíneo, e a falta de fluxo sanguíneo impede que a fissura cicatrize.

A toxina botulínica (popularmente conhecida como botox) é uma neurotoxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum. Na medicina, é utilizada em doses controladas para relaxar músculos que estão em contração excessiva.
Na fissura anal crônica, a toxina botulínica é injetada diretamente no esfíncter anal interno. Ao atingir o músculo, ela bloqueia a liberação de acetilcolina nas terminações nervosas, impedindo temporariamente a contração muscular.
O resultado prático é o relaxamento do esfíncter, quebrando o ciclo vicioso da fissura anal crônica:
● O espasmo muscular cessa
● O fluxo sanguíneo para a região da fissura é restabelecido
● A ferida recebe oxigênio e nutrientes suficientes para cicatrizar
● A dor diminui significativamente desde os primeiros dias
O efeito da toxina botulínica é temporário, durando em média 2 a 3 meses. No entanto, esse período costuma ser suficiente para que a fissura cicatrize definitivamente.
A aplicação da toxina botulínica na fissura anal é um procedimento rápido, simples e realizado em ambiente ambulatorial:
● O paciente é posicionado e a região anal é avaliada
● A toxina é injetada com uma agulha fina diretamente no esfíncter anal interno, em um ou dois pontos ao redor da fissura
● O procedimento dura poucos minutos
● Pode ser realizado sob anestesia local, sem necessidade de anestesia geral
● O paciente é liberado no mesmo dia e pode retornar às atividades leves imediatamente
A dose utilizada é específica e controlada, suficiente para relaxar o esfíncter sem causar incontinência fecal. O efeito começa a ser percebido nos primeiros 2 a 5 dias após a aplicação.

A literatura médica demonstra taxas de cicatrização da fissura anal crônica com toxina botulínica entre 60% e 80% dos casos. Esses resultados são significativos, considerando que se trata de fissuras que já falharam ao tratamento conservador.
Os principais benefícios observados:
● Redução expressiva da dor nos primeiros dias após a aplicação
● Cicatrização completa da fissura na maioria dos pacientes em 6 a 12 semanas
● Preservação total da função do esfíncter (sem risco de incontinência permanente)
● Recuperação imediata, sem afastamento das atividades
● Possibilidade de repetir a aplicação caso necessário
Nos casos em que a primeira aplicação não é suficiente, uma segunda dose pode ser administrada após 2 a 3 meses, elevando as taxas de sucesso.
A toxina botulínica na fissura anal é indicada principalmente em:
● Fissura anal crônica que não cicatrizou após 6 a 8 semanas de tratamento conservador (dieta, fibras, banhos de assento, pomadas)
● Pacientes que desejam evitar a cirurgia (esfincterotomia) em um primeiro momento
● Pacientes com risco aumentado de incontinência fecal (idosos, mulheres com histórico de parto vaginal traumático, pacientes com tônus esfincteriano limítrofe)
● Fissuras recorrentes em pacientes já submetidos a procedimentos cirúrgicos anteriores na região anal
O tratamento cirúrgico padrão para a fissura anal crônica é a esfincterotomia lateral interna, que consiste na secção parcial e definitiva do esfíncter anal interno. É uma cirurgia com altas taxas de cicatrização (superiores a 95%), mas que carrega um pequeno risco de incontinência fecal para gases ou fezes líquidas.
A toxina botulínica oferece uma alternativa ao produzir um relaxamento temporário e reversível do esfíncter, sem seccioná-lo. As taxas de cicatrização são ligeiramente menores, mas a grande vantagem é a preservação completa da anatomia muscular.
Toxina botulínica | Esfincterotomia | |
Mecanismo | Relaxamento temporário | Secção definitiva |
Taxas de cicatrização | 60 a 80% | Superior a 95% |
Risco de incontinência | Mínimo e reversível | Pequeno, mas permanente |
Reversibilidade | Total (efeito dura 2-3 meses) | Irreversível |
Recuperação | Imediata | Poucos dias |
Na prática, a toxina botulínica costuma ser a primeira escolha em pacientes com risco de incontinência ou que preferem uma abordagem menos invasiva. A esfincterotomia fica reservada para casos refratários à toxina botulínica ou quando o paciente opta por um tratamento com maior taxa de resolução definitiva.
Após a aplicação da toxina botulínica na fissura anal, alguns cuidados otimizam os resultados:
● Manter dieta rica em fibras e hidratação para fezes macias
● Continuar os banhos de assento mornos para conforto local
● Evitar esforço evacuatório excessivo
● Retornar ao consultório para reavaliação conforme orientação do especialista
● Comunicar imediatamente qualquer sinal de perda involuntária de gases ou fezes (raro, mas possível)
O desconforto é mínimo. A injeção é feita com agulha fina e pode ser realizada sob anestesia local. A maioria dos pacientes relata uma leve sensação de picada e pressão, que dura poucos segundos.
O risco de incontinência com a toxina botulínica é muito baixo e, quando ocorre, é temporário e reversível (duração de 2 a 3 meses). Diferente da esfincterotomia, que produz um relaxamento definitivo, a toxina botulínica permite que o músculo recupere sua função completa após o término do efeito.
A maioria dos pacientes responde com uma única aplicação. Nos casos em que a cicatrização não é completa, uma segunda aplicação pode ser realizada após 2 a 3 meses. Se após duas aplicações a fissura anal persistir, a esfincterotomia cirúrgica pode ser considerada.
O objetivo da toxina botulínica é quebrar o ciclo vicioso de espasmo e isquemia, criando as condições ideais para que a fissura cicatrize naturalmente. Uma vez cicatrizada, a fissura está resolvida. No entanto, novas fissuras podem surgir no futuro se os fatores de risco (constipação, esforço evacuatório) não forem controlados.
A fissura anal crônica não precisa ser uma sentença de dor diária. A toxina botulínica oferece uma alternativa segura, eficaz e minimamente invasiva para pacientes que não responderam ao tratamento conservador. Se você convive com dor ao evacuar há semanas ou meses, procure um coloproctologista para avaliação e descubra qual o melhor caminho para o seu caso.
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