Se você fez a cirurgia de refluxo e os sintomas voltaram, ou se você começou a sentir novos desconfortos, este conteúdo é para você.
Vamos conversar sobre a reoperação da cirurgia de refluxo, também chamada de cirurgia revisional de fundoplicatura.
Eu sei que a ideia de operar novamente gera insatisfação e pode dar medo, mas em alguns casos pode ser a melhor alternativa para recuperar a qualidade de vida e evitar complicações graves, como o esôfago de Barrett e o câncer de esôfago.
Por que a primeira cirurgia pode não ter dado certo?
A cirurgia clássica para o refluxo, chamada fundoplicatura, cria uma "válvula" com o próprio estômago para impedir que o conteúdo gástrico suba de volta para o esôfago.
Na imensa maioria dos casos, a cirurgia é bem-sucedida. A literatura médica mostra taxas de satisfação superiores a 90% em 10 anos de acompanhamento.
Mas, em uma pequena porcentagem de pacientes, essa válvula pode sofrer alterações com o tempo. Os principais motivos para isso acontecer são:
● A válvula ter ficado frouxa demais, fazendo o refluxo voltar
● A válvula ter ficado apertada demais, dificultando a descida dos alimentos e gerando desconforto e dificuldade de engolir
● O estômago ter migrado para o tórax, levando a válvula criada junto com ele e causando outros sintomas
Quando isso acontece, o paciente volta a sentir azia, queimação, regurgitação ou começa a ter a sensação de que a comida fica "entalada" no peito.

Quando a reoperação é indicada?
Uma vez que ocorre esse retorno dos sintomas, pode existir a necessidade de reoperação. Nós indicamos a reoperação em três situações:
● Quando os exames comprovam que a válvula está inadequada e o paciente volta a ter sintomas
● Quando o paciente apresenta dificuldade persistente para engolir (disfagia) que não melhora com dilatação endoscópica ou medicamentos
● Quando uma nova hérnia de hiato volumosa se forma, deslocando a válvula para o tórax

Como é feita a reoperação?
O objetivo dessa segunda cirurgia é corrigir a anatomia. Na prática, nós desfazemos a válvula antiga, avaliamos os tecidos e construímos uma nova válvula, bem ajustada. Se houver uma hérnia, nós fechamos novamente a abertura do diafragma (o hiato esofágico) para garantir que tudo fique no seu devido lugar.
O papel da cirurgia robótica na reoperação
Hoje, com a cirurgia robótica, estas reoperações se tornaram menos desafiadoras. Como a região já foi operada antes, existem cicatrizes internas, as chamadas aderências, que tornam a dissecção dos tecidos mais delicada.
O robô oferece uma visão em três dimensões, ampliada e em alta definição, além de pinças articuladas que fazem movimentos ultra precisos com amplitude de 360 graus. Isso nos permite separar os tecidos com muito mais segurança, reduzindo o risco de lesão em estruturas nobres como o esôfago e os nervos vagos, além de diminuir o sangramento e o tempo de recuperação.
Quais são os riscos?
Como médicos, precisamos ser muito transparentes: toda reoperação é mais complexa do que a primeira cirurgia. Os tecidos já manipulados possuem aderências e a anatomia pode estar distorcida.
No entanto, quando o procedimento é feito por um cirurgião experiente em reoperações do aparelho digestivo e com o suporte da tecnologia robótica, conseguimos minimizar esses riscos de forma significativa.
Quando não reoperar?
Isso é fundamental. Nem todo mundo que continua com sintomas deve voltar para a mesa de cirurgia.
A literatura médica é clara em afirmar que não se opera quem não tem uma causa anatômica comprovada. Ou seja, se os exames mostrarem que a válvula está perfeita e no lugar certo, o problema pode não ser o refluxo em si. Pode ser uma hipersensibilidade esofágica ou distúrbios motores do esôfago. Nesses casos, o tratamento deve ser com medicamentos ou terapias específicas, como neuromoduladores ou terapia comportamental, e a cirurgia não deve ser indicada.
Quais exames são necessários antes de decidir pela reoperação?
Antes de qualquer decisão, uma investigação completa precisa ser realizada. Os principais exames incluem:
● Endoscopia digestiva alta com biópsia: para avaliar o estado da mucosa esofágica e a posição da válvula
● pHmetria de 24 horas (ou impedância-pHmetria): para confirmar se existe refluxo ácido ou não ácido de fato
● Manometria esofágica de alta resolução: para avaliar a função motora do esôfago e a pressão da válvula
● Esofagograma (estudo radiológico contrastado): para visualizar a anatomia da válvula e identificar hérnia de hiato
Somente com essa investigação completa é possível determinar se a reoperação trará benefício real ao paciente.
FAQ: Perguntas frequentes sobre reoperação de cirurgia de refluxo
A reoperação de refluxo é mais arriscada que a primeira cirurgia?
Toda reoperação carrega um grau maior de complexidade, pois os tecidos já foram manipulados e apresentam aderências. No entanto, com a cirurgia robótica e um cirurgião experiente em reoperações, os riscos são significativamente reduzidos. A tecnologia permite uma dissecção precisa mesmo em áreas com cicatrizes, oferecendo mais segurança ao procedimento.
Quanto tempo depois da primeira cirurgia os sintomas podem voltar?
Os sintomas podem retornar em meses ou anos após a cirurgia original. Não existe um prazo fixo. Alguns pacientes apresentam recorrência nos primeiros dois anos, enquanto outros mantêm bons resultados por décadas antes de qualquer alteração. A avaliação periódica com o especialista ajuda a identificar mudanças precocemente.
É possível tratar o refluxo recorrente sem reoperar?
Em alguns casos, sim. Se os exames mostrarem que a válvula está anatomicamente íntegra e bem posicionada, o tratamento pode ser feito com medicamentos como inibidores da bomba de prótons, neuromoduladores ou terapias comportamentais. A decisão entre tratamento clínico e cirúrgico depende inteiramente do que a investigação revelar.
A cirurgia robótica é obrigatória na reoperação?
Não é obrigatória, mas representa uma vantagem considerável. A visão tridimensional ampliada e os movimentos ultra precisos das pinças robóticas facilitam a dissecção em áreas com aderências e cicatrizes. Isso se traduz em menor risco de complicações, menor sangramento e recuperação mais rápida para o paciente.
Esse é um texto informativo e não substitui a consulta médica. Procure um cirurgião do aparelho digestivo especialista em cirurgia revisional para avaliação, diagnóstico e orientação sobre o tratamento mais adequado para o seu caso.
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